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Curtumes

CurtumesA primeira referência a esta actividade relacionada com o tratamento e manuseamento de peles surge num documento de 1151 alusivo à venda de uma vinha e casal, onde aparece a referência ao Ribeiro dos Couros, mais tarde designado de «Merdário». A proliferação desta actividade também é referenciada no século XIV, e já apresentava uma distribuição espacial específica. Assim, apareciam concentradas junto a um pequeno curso de água, em São Sebastião, e nas margens do Rio Selho, no lugar da Corredoura, na freguesia de São Torcato. Até meados do século XX, estes dois espaços utilizavam a curtimenta das peles para a produção de artigos de sapataria, recipientes para guardar o vinho, o azeite e a farinha, correias para o trabalho agrícola e selas para cavalos, com couros provenientes da terra e posteriormente importados do Brasil.

Até à introdução tardia da mecanização e dos produtos químicos, o processo de curtir as peles era composto pela lavagem das peles em água corrente, e deixadas, vários dias, em banhos envelhecidos com água e cal, posteriormente depiladas, lavadas e mergulhadas novamente num banho. Este banho tanante era proveniente da maceração de cascas de carvalho ou das folhas de sumagre, após meses de curtimento permanente, eram deixadas a secar ao are, finalmente, engorduradas com óleos e sebo com o objectivo de as tornar maleáveis e impermeáveis. Esta actividade que permaneceria rudimentar até aos finais do século XIX poderia ser efectuada isoladamente ou como um complemento da actividade agrícola, e viria a dar um dinamismo económico substancial às unidades de produção que proliferavam dentro do aglomerado urbano.

Segundo o Mapa das Fábricas instaladas na vila, no termo e na Comarca de Guimarães, enviado em 1815 à Junta do Comércio, verificamos a existência de 40 fábricas, 14 em Guimarães, 22 em São Tomé de Travassós, 2 no Couto de Fonte Arcada e 2 em São Torcato.

Ao longo de todo o século XIX, a importância económica das actividades de curtir as peles tornava-se cada vez mais evidente. O inquérito de 1852 identifica o sector dos curtumes como a actividade industrial mis numerosa no território vimaranense, englobando 13 oficinas e 67 operários. Passados dez anos, Guimarães já apresentava 41 fábricas de curtumes, com uma produção anual de 300 mil Kg de couros já curtidos e preparados para o consumo e a exportação. Contudo, permanecia o pendor tradicional dos procedimentos e um método empirista de aprendizagem do ofício. A ausência do ensino industrial originava uma aprendizagem sensorial decorrente da prática de trabalho. O inquérito industrial de 1881, aponta para Guimarães como o principal pólo de florescimento distrital, relativamente às actividades de curtimenta, que já integravam 300 operários.

No trabalho e tratamento das peles assistia-se a alguma especialização, é o caso do curtidor e do surrador, porém tinham sempre de manter relações com os detentores dos meios de produção. Embora este sector contribuísse com um valor anual de 1000000$00, continuava confinado a pequenas oficinas ou ao próprio domicílio, sem grande maquinaria, e com mão-de-obra dotada de pouca aptidão técnica, onde a maioria não sabia ler nem escrever. Predominava a presença de trabalhadores do sexo masculino, adultos ou crianças, justificada pela necessidade de força física no desempenho das tarefas. As mulheres estavam remetidas para actividades mais caseiras, sendo possível a sua colaboração através da recolha de excremento de aves nos pombais das quintas e a recolha de resíduos florestais como as cascas de carvalho e as folhas de sumagre fundamentais para a preparação dos banhos tanantes. Muita da casca de carvalho utilizada era proveniente de Fafe, em Junho e Julho era retirada da árvore e levada para as eiras, ficando exposta ao sol durante dias e noites consecutivos. Uma vez seca, é moída no pio cuja mó era puxada por bois ou vacas e só depois distribuída para as fábricas de curtumes do Porto e de Guimarães.

Com o surgimento, em 1855, da obrigatoriedade de regulamentação dos estabelecimentos industriais insalubres e perigosos, que foi publicado em 1963 e revogado em 1922, estabelece-se um novo decreto cuja aplicação se veio a tornar num forte condicionante da sua implementação geográfica. Contudo, todos os efeitos nefastos desta actividade desenvolvida na vizinhança dos aglomerados urbanos eram tolerados pelo facto de trazerem contrapartidas importantes para a melhoria das condições de vida. Exemplo disso era casca de carvalho, que após a extracção do tanino, e depois de muito bem seca, era utilizada para queimar e conservar o lume, pois permitia arder sem chama, aquecendo e mantendo o lume durante várias horas. Quando apagado, a sua cinza podia ser utilizado como adubo em terras agrícolas. As próprias gorduras que se libertavam durante o processo de descarnar destinavam-se à produção de cola.

Em 1901 foi criada a Associação de Classe dos Curtidores e Surradores de Guimarães com o objectivo de apoiar economicamente os sócios em caso de doença ou outra incapacidade de trabalhar, e como resposta à instabilidade social que se estava a afirmar. Posteriormente, foi criada a Caixa de Socorros Mútuos dessa mesma Associação, porém a adesão não era valorizada por todos os trabalhadores. Apesar disso, esta Associação que preconizava a harmonia das relações entre empregador e empregado, conseguiu travar alguma das tensões de classe que se estavam a instalar. Com a crise posterior à implantação da República, intensifica-se o conflito laboral e as manifestações dos trabalhadores contra os donos dos estabelecimentos. O operariado deste sector foi o protagonista de sucessivas greves e reivindicações relacionadas com o aumento salarial e diminuição do horário de trabalho, numa frequente alusão às condições de trabalho dos operários do Porto. Em 1913 emerge uma crise ainda maior, que afectou centenas de operários fazendo-os passar por difíceis condições de subsistência, levando a Associação de Curtidores e Surradores a oferecer ajuda aos sócios, mas sem conseguir dar resposta a todas as situações.

Durante o período da I grande Guerra, as tensões sociais e laborais parecem ter diminuído de intensidade.

O aperfeiçoamento técnico em Guimarães só aconteceu com o advento da energia eléctrica, na mesma altura em que a as autoridades indeferiam os projectos de licenciamento de indústrias insalubres perto das habitações, originando um declínio na actividade, patente no Relatório Industrial e Agrícola de 1923, que indicava que esta tinha perdido o lugar de destaca para a indústria têxtil.

A Zona dos Couros foi classificada como imóvel de interesse público em 1977, e embora o seu papel económico tenha definhado, a sua importância simbólica deixou rasto até à actualidade. É de sublinhar a importante celebração concelhia da peregrinação anual até à Penha, cuja origem remonta ao final do século XIX, quando operários curtidores e surradores tomaram a iniciativa de rumarem à Nossa Senhora do Porto de Ave, na Póvoa de Lanhoso no dia 8 de Setembro com o intuito de realizar as suas promessas. Os membros da Comissão de Melhoramento da Penha conseguiram que esse grupo de operários altera-se o percurso e rumasse à Senhora da Penha.   

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